[Entrevista] Ele disse: Adeus, Zona de Conforto – 18 meses e 52 países depois, olha o que aconteceu

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Eu conheci o Pedro em Pai, Tailândia. Aleatoriamente nos encontramos de novo em Chiang Mai, na mesma van que nos levava até a fronteira com o país comunista Laos – minha mãe nem sabia que existia!

Por Pedro Sander Becker, via Adeus, Zona de Conforto
“A vida começa no fim da sua Zona de Conforto” por Pedro Sander Becker

Com um grupo de mais de 12 conhecidos, como uma grande família mesmo, pegamos o barco que por 2 dias nos levou pelo rio Mekong até a cidade Patrimônio Mundial da Humanidade e muito charmosa, Luang Prapang. 

Alguns poucos dias de convivência foram suficientes para entender que Pedro é um verdadeiro amante da vida, do mundo e sua diversidade cultural. Eu fiz esta breve entrevista porque um dia ele resolveu dizer: “Adeus, Zona de Conforto“.

Volta ao mundo de Pedro - 52 países em 18 meses
Volta ao mundo de Pedro – 52 países em 18 meses

Quando nos conhecemos ele até comentou que escrevia. Porém só depois de um bom tempo puder ler alguns de seus posts, como por exemplo o Manifesto e fiquei impressionado – a identificação foi instantânea.

Vejo que minha decisão de viajar mais foi provavelmente uma das melhores que fiz na vida. Entenda porque foi também para Pedro Becker Sander:

O que mais lhe incentivou a sair da zona de conforto e encarar o “mundo lá fora”?

Perceber que quanto mais eu repetia velhos hábitos, mais eu me distanciava de quem eu queria ser de verdade. Eu precisava de uma ruptura. De um atirar-se no desconhecido onde ninguém teria pressuposições e expectativas sobre a minha pessoa. Um lugar onde eu pudesse reconstruir a minha personalidade eliminando tudo o que eu não concordava, mas que tinha sido incrustado na minha pele pelo convívio social. Foi a chance que eu enxerguei de deixar de ser ator, assumir a caneta e passar a ser escritor da minha própria história.

O sorriso de uma flor, por Pedro Sander Becker
O sorriso de uma flor, por Pedro Sander Becker

Quais as principais publicações que lhe influenciaram a sua viagem de volta ao mundo?

Um livro, um post, um filme e uma pergunta decisiva de um mentor: “do que eu mais me arrependeria de não ter feito, ao chegar ao final da vida?”

A questão financeira parece ser um grande empecilho para muitos que tem esse sonho. Como você fez?  Uma coisa muito curiosa que vi você fazendo foi registrar todo que gastava – isso inclusive me influenciou e hoje faço o mesmo. Poderia contar um pouco como gerenciou seu dinheiro antes e durante a viagem? 

Dar a volta ao mundo é mais barato do que parece. Se compararmos com o custo de sustentar um lar no Brasil, viajar se torna até mais barato. O truque é conseguir aliar uma estratégia de manter uma fonte de renda de forma virtual. Tem gente que trabalha como designer ou programador enquanto viaja. Acho essas situações ideais, pois você não está consumindo patrimônio, e está reduzindo o custo de vida de uma maneira fenomenal; conhecendo o mundo. Mas entendo que essa realidade não é possível para muitas profissões, como é o meu caso.

Eu vendi carro e juntei minhas economias de estágios e primeiros empregos, e ainda tive a sorte de ter uma família que teve condições de me dar o apoio necessário, já que eu não tinha todo o recurso. Mas o timing da minha vida era fenomenal, e fico feliz de ter recebido essa ajuda em um momento ímpar, onde eu ainda não tinha um emprego estável, uma casa, esposa e filhos para sustentar, e ao mesmo tempo tinha muitas dúvidas sobre o meu futuro como profissional e como ser humano.

Para conseguir viajar dentro de um budget, registrei minuciosamente cada gasto, até mesmo um pastel, uma moeda perdida. Acho que disciplina financeira é fundamental na hora de priorizar gastos. Se você não sabe quanto gastou em bebida alcóolica no mês anterior, como decidir que esse é um gasto excessivo e supérfluo? Saber para onde o dinheiro vai é básico para tomar decisões mais inteligentes. Dinheiro bem investido é dinheiro investido em experiências.

Em relação a passagens, somando todos os meus bilhetes eu não gastei 2/3 do custo de uma dessas passagens de volta ao mundo. Caçar promoções é uma atividade básica da rotina do viajante low cost.

Deserto do Sahara, por Pedro Sander Becker
Deserto do Sahara, por Pedro Sander Becker

 

Obrigado Pedro pelas respostas incríveis (e fotos)!

Para finalizar, deixo com você, nobre leitor, um texto dele que expressa um pouco o que acontece com uma pessoa que decide descobrir os segredos de um planeta vasto em diversidade.

Simplesmente dizer que cruzar o planeta desafiou a minha visão de mundo e expandiu os meus limites seria superficial, equivocado e infinitamente patético.

Fui virado do avesso, tive o tapete puxado, perdi o chão, o fôlego, mudei de ideia várias vezes sobre as mais variadas crenças internas—desde religião, papel do Estado, conceito de vida em comunidade, até gostos pessoais. Tornei realidade um sonho, mesmo sabendo agora que lá na estrada essa realidade é bem diferente do que se imagina.

Ter 18 meses praticamente isolado de qualquer pessoa que eu conhecesse previamente teve um efeito sem paralelo. Pude escolher todos os dias quem eu queria ser e o que eu queria fazer. Tive 18 meses para não ter medo de dançar na rua, usar roupas ridículas, dormir na praia, falar com estranhos o tempo inteiro sem ser taxado de louco. Alguns desses estranhos com os quais acabei viajando 3 países, escalando montanhas, vulcões… Estive frente a frente com milagres da natureza como o Monte Everest, os geisers da Islândia, as Torres del Paine, o deserto do Sahara, o Alaska, o arquipélago de San Blas, a Terra do Fogo, os Alpes da Nova Zelândia, Halong Bay, Koh Phi Phi. Fui testemunha da história em Auschwitz, em Jerusalém, no deserto da Judéia, nos Killing Fields do Camboja, em Machu Picchu, em Chichen Itzá, em Tikal, as ruínas de Copán, nos templos de Bagan, em Angkor Wat, nas pirâmides do Egito. Me senti pequeno todas as vezes em que me vi adiante de algo impressionante e me senti grande todas as vezes que tive a coragem de fazer algo pela primeira vez. Tive conversas que mudaram a minha vida, com pessoas que eu conhecia há poucas horas.

Tudo isso para descobrir que sou profundamente ignorante. Para cada pergunta sobre a vida para a qual eu encontrei uma resposta, outras 10 perguntas novas surgiram. E tive que aprender que acumular conhecimento é diferente de construir sabedoria. Esse será um caminho bem mais longo, eterno.

Depois de passar por 52 países, não tenho mais a coragem de pensar que seres humanos são todos iguais. Temos em geral o mesmo formato e objetivos similares—ser feliz, cultivar bons hábitos, ter relevância—mas as sutilezas são muito mais influentes do que conseguimos perceber. É olhando sobre essas sutilezas que aprendemos que cada pessoa trilhou um caminho até aqui, e possui razões e motivos para ser como é que nós nunca vamos entender. Por mais que o comum seja pensar nos lugares, o que mais me marcou dessa jornada foram as pessoas.

Sinto uma profunda falta do sorriso tímido dos cambodians, da hospitalidade e generosidade dos nepalis, da gratidão dos tailandeses, da determinação dos holandeses e vietnamitas, da sensatez brincalhona dos alemães, da paz e simplicidade dos neozelandeses e islandeses, da devoção dos egípcios e indianos, do sangue quente e da paixão pela vida dos colombianos, da erudição dos chilenos e argentinos, da humildade dos bolivianos. Tenho a nostalgia inocente de saber que eu fui um pouco do melhor de cada um deles enquanto com eles estive, mas que não posso ser todos ao mesmo tempo sem que eles estejam ao meu lado. O ambiente nos determina, e talvez essa seja a parte mais magnífica de viajar.

Hoje faz um mês que estou de volta, sabendo o quão transformadora foi essa jornada, e me faltariam palavras para incentivar todos a saírem por aí. Como li em algum lugar hoje, “se você se forçar a sair de casa, alguma coisa fantástica sempre acontece”. E não é verdade? Acho que é a mais pura verdade. Cada minuto é grávido de incontáveis oportunidades. Cada vez que colocamos o pé na rua, algo interessante acontece, se deixarmos.

Há uma lição fantástica atrás das cortinas de cada cultura do planeta. Ter conhecimento delas será fundamental na busca por sermos aquilo que de fato melhora o mundo: a nossa melhor versão. Dream. Explore. Discover.

Bônus – Vídeo “Entenda a Zona de Conforto”

Gostaria de agradecer mais uma vez o Pedro e aproveitar para entregar a você um bônus, que é um vídeo que o Cadu Cassaú compartilhou. Assista o vídeo e veja que ficar preso na Zona de Conforto provavelmente não vai lhe permitir realizar seus sonhos:

5 Comentários

  1. O texto ao final da entrevista é de arrepiar… cara, quero muito isso pra mim e já estou com um sentimento indescritível, misto de ansiedade com medo, nervosismo e felicidade dos dias estarem passando e eu perceber que em breve serei mais um no mundo como vocês, trilhando o meu caminho e fazendo a minha história em busca de uma plenitude pelo o que vale a pena na vida, experiências, lembranças e aprendizado.
    Obrigado Dan por apresentar esse cara, já virei fã e dei uma lida no blog dele!

    • O mundo é nosso Cadu. Vamos nessa, tem muita coisa pra ver, sentir, viver. Tenho certeza que essa sua viagem vai lhe abrir oportunidades incríveis que tu nunca nem imaginou. Apresentar o Pedro é um dever! Fico feliz que curtiu.
      Abraço!

  2. Exato. O final do texto arrepia! E eu aqui (na Suiça) chorando as màgoas porque nao consegui ainda um jeito de estar aqui e no Brasil mais vezes, tudo por falta de recursos.
    Agora vou virar-me do avesso para conseguir, na vida o que nao falta é zona de conforto…. rss
    Voce precisa ser clonado. Beijos no coraçao. Re

    • Eu penso que a todo momento nos colocamos em zonas de confortos.
      Nós estávamos viajando de van pra cima e pra baixo e nos encontramos em uma zona de conforto, acredite.
      Várias coisas que deveríamos fazer para deixar a viagem mais interessante e não fizemos.

      O jeito foi largar tudo e voltar a ser mochileiro! rs

      Obrigado por deixar sua experiência por aqui.
      Bjo!

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